O medo e a ganância nas Bolsas.

04 Novembro 2008

Existe um adágio em Wall Street que diz que os mercados financeiros são conduzidos por apenas duas emoções: medo e ganância.
Ceder a estas emoções produz quase sempre um profundo efeito prejudicial. Este prejuízo poderá circunscrever-se à carteira de investimentos de um investidor ou, em determinados momentos, tomar conta do mercado no seu todo.
Acreditamos que, a partir de um determinado momento, o medo tomou igualmente conta das operações nos mercados ao longo das últimas semanas.

Compreender a influência destas emoções na evolução dos mercados bolsistas e desenvolver os respectivos mecanismos de defesa, assume uma importância tão grande como o desenvolvimento de uma boa estratégia de investimento.

Muitos de nós, pelo menos num determinado momento, desejamos alcançar tanta riqueza quanto possível na mais curta fracção de tempo. Esta mentalidade “torne-se rico num minuto” conduz quase sempre a maus resultados. Os investidores esquecem muitas vezes que o mundo ideal das elevadas rentabilidades sem risco, não existe.
O crescimento da Internet no final da década de 90 apresenta-nos um bom exemplo de uma circunstância em que a “irracionalidade exuberante” assumiu o comando. Na altura, aparentava que tudo aquilo que era necessário fazer seria seleccionar qualquer investimento com o sufixo “.com”. A grande dificuldade nestes momentos parecia residir em seleccionar as acções das empresas que subiam mais, uma vez que, em escalas diferentes, todas subiam. O investimento em acções de empresas (muitas delas start-ups) do sector de Internet (sector desconhecido para a esmagadora maioria dos investidores), alcançou uma cadência doentia. Os investidores entraram numa “espiral de ganância”, provocando uma sobrevalorização muito exagerada nos preços destes activos, situação que conduziu à formação daquilo que vulgarmente se designa de “bolha especulativa”.
O desfecho desta situação é conhecido. A bolha especulativa rebentou em meados de 2000 e manteve os principais benchmarks deprimidos durante cerca de 2 anos.

Da mesma forma, o medo, uma sensação desagradável, por vezes forte, de antecipação ou consciência do perigo, produz igualmente fortes impactos nos mercados financeiros. Quando as acções ou os índices registam elevadas perdas num determinado período de tempo (tendencialmente curto), os investidores e o mercado tomados pelo receio de incorrer em perdas adicionais, sentem um apelo quase irresistível para vender os seus activos. Ser demasiado medroso pode ser tão prejudicial quanto ser excessivamente ganancioso.
Do mesmo modo que a ganância dominou o mercado durante a formação da bolha especulativa “.com”, o mesmo pode ser dito da prolongada prevalência do “estado de medo” que se lhe seguiu. Nestes momentos, os investidores tendem a “vender primeiro e analisar depois”. Vendem de forma indiscriminada, bons e maus activos. Querem, a qualquer preço, ver-se livres da má sensação, que começa a ser física, que se apoderou do seu espírito e corpo. Nestes momentos, os investidores agem quase como se “não existisse amanhã”.

Quando este estado de pânico se instala, estamos perante um indicador quase infalível de uma excelente oportunidade de investimento. Outro indicador interessante, mas menos infalível, resulta da atenção que nestes momentos é dada aos mercados bolsistas pelos telejornais e principais meios de comunicação generalistas. Quando o jornal da noite abre com a notícia da queda das bolsas, estaremos muitas vezes perante uma oportunidade de compra.

Warren Buffett diz a este propósito que uma simples regra determina as suas decisões de investimento: “Sê medroso quando a maioria é gananciosa; e sê ganancioso quando a mesma maioria se tornou medrosa”. Num artigo recente por si assinado numa coluna do New York Times, Buffett recomendou o investimento em acções americanas, em obediência precisamente a este princípio de investimento.

Buffett sabe que as principais oportunidades de investimento surgem nos períodos de maior incerteza.




Oliveiros Cheta

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