Os preços no consumidor



Agosto 2009

Na semana passada foi notícia, segundo dados da OCDE, terem os preços no consumidor recuado 1,6% em Portugal, durante o mês de Junho, uma queda apenas superada, entre os trinta países que compõem a Organização, pela Irlanda. Porém, em termos homólogos, se do índice de preços forem excluídos os cálculos respeitantes aos valores dos preços mais voláteis da energia e da alimentação, então a inflação em Portugal foi de 0,5%, em relação a idêntico período do ano transacto.

Precisamente um dia antes da divulgação, “White sugar prices reach 25-year high”, era o título de uma notícia no Financial Times. Para o autor do texto, Javier Blas, o impacto das fracas monções na Índia, (o maior consumidor de açúcar no mundo), obrigou o governo de Nova Deli não só a isentar as importações, como a alargar aos privados a importação deste bem, até agora só permitido a empresas estatais.

Se na Índia a seca ameaça a produção de açúcar, no Brasil, o maior produtor e exportador do mundo, vê a sua produção ameaçada pelas fortes chuvas. Seca na Índia, chuvas torrenciais no Brasil levaram a tonelada do açúcar a atingir, na semana que passou, o seu valor mais alto desde que o mercado de futuros do açúcar londrino iniciou em Julho de 1983.  


Jack Delano, Sacos de açúcar, 1940

  

A par do açúcar, também o preço do crude no mercado de futuros atingiu o pico do ano na semana passada, embora as reservas de petróleo dos EUA voltassem a aumentar para os valores mais elevados das últimas cinco semanas.

Se a queda acentuada do preço do petróleo, depois do valor máximo atingido em Julho do ano passado, provocou e provoca fortes contestações no preço dos combustíveis vendidos nas gasolineiras, por não reflectirem essa quebra, no que concerne ao preço de distribuição dos produtos alimentares, a contestação foi silenciosa, na verdade, quase nem se ouviu. No entanto, é legítimo perguntar: porque não caíram os preços dos produtos alimentares nos supermercados em qualquer parte do mundo se os preços pagos pelas matérias-primas sofreram, tal como o petróleo, fortes correcções? Como se justifica tal desfasamento e tão pouca contestação?

Na década de 1930, as plantações de café no Brasil eram tão grandes e produtivas que o
mercado do café ficou saturado. Em desespero de causa, com os preços a atingirem valores tão baixos, os produtores pediram à Nestlé, à época uma empresa leiteira sem experiência no processamento de café, que desenvolvesse um produto que incitasse os consumidores a beberem mais café. Sob a marca Nescafé, (1937), a invenção do conceito de café instantâneo revelou-se um produto arrasador – os consumidores não só passaram a beber mais café, como a pagar um valor mais alto do que pagavam pelo grão em bruto. 

O que levara a Nestlé a investir no café instantâneo não foi o facto dos consumidores estarem ansiosamente à espera do café rápido, mas sim o facto do café em grão se ter tornado demasiado barato para ser vendido em bruto.

O que se passou com o café passou-se com outras matérias-primas, e a empresa Kellogg, tal como a Nestlé, tirou muitos agricultores da ruína ao transformar os cereais baratos em Corn Flakes.

Ao aplicar uma margem generosa pelo novo serviço que prestavam ao consumidor – maior facilidade e rapidez na concepção de uma refeição – muitas foram as empresas que promoveram uma nova indústria alimentar, onde raramente transferiam as quebras das matérias-primas no produto final, ao ponto de hoje, se poder dizer, que são os transformadores e vendedores de alimentos, e não os produtores, a comandarem o mercado. Basta olhar para o que se passa na União Europeia, onde se julga que só metade dos subsídios agrícolas da PAC, o maior programa de subsídio deste sector a nível mundial, chega às mãos dos produtores agrícolas. Desde empresas de construção, que semeiam gravilha em lugar de sementes, a empresas transformadoras como a Haribo alemã, que transforma açúcar em rebuçados, a empresas de catering, que abastecem aviões e cruzeiros, até à americana Cargill, uma das quatro a controlar 80% do mercado de carne de vaca nos EUA, todas são qualificadas para receberem generosos subsídios. 

Há praticamente um ano, a 20 de Maio de 2008, num sinal de nervosismo perante a subida dos preços dos bens agrícolas, a Comissão Europeia reunia-se de emergência em Bruxelas, afim de discutir o problema do seu défice agrícola. Na sua incapacidade de aliviar os preços, foi fácil culpar os especuladores.

Secas e chuvas torrenciais tornam a produção alimentar numa economia frágil, mas para os burocratas de Bruxelas os actuais modelos de distribuição de subsídios agrícolas são uma adaptação às diferentes formas da agricultura moderna. Afinal, perante tantos fabricantes e distribuidores a quem deve o consumidor reclamar?

Num mundo de refeições congeladas e comida empacotada fácil de cozinhar em microondas, alimentar a família não é hoje mais difícil do que atestar o depósito de um carro e não é pois de estranhar as recentes campanhas de desconto, durante este mês de Agosto, entre petrolíferas e hipermercados: “Quem abastecer mais de 15 euros recebe um vale de seis cêntimos para gastar nos hipermercados Modelo Continente” frisa a campanha da Galp, que pretende incentivar o consumo.
Agora é só uma questão de tempo até o efeito desinflacionista da queda abrupta das matérias-primas começar a desvanecer-se, as notícias começarem de novo a falar em inflação dos preços para o silêncio ser quebrado e as culpas serem de novo apontadas aos especuladores.

 
Madalena Colaço

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