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Recue nove anos na sua memória. O que estava a fazer ao meio-dia de 10 de Março de 2000? Possivelmente, preparava-se para almoçar, mas enquanto o seu estômago ansiava pela refeição, o de centenas de milhares de investidores em todo o mundo tinha nesse preciso momento acabado de apanhar com um valente murro. Um golpe virtual, é certo, mas suficientemente forte para abalar a economia. E quem foi o culpado? Está a olhar para ele.
ADMIRÁVEL MERCADO NOVO
Em meados da década de 90, o computador abria as portas a um gigante desconhecido. Nesse misterioso universo, interligado por uma super-auto-estrada de informação, não havia fronteiras, nem limites, nem regras fixas. Mas havia gente. Mais do que num continente inteiro. Gente jovem, activa noite e dia, cheia de dinheiro, vontade de o gastar e com um canal de acesso imediato a todo o tipo de produtos! Só era preciso vender-lhos, e quem primeiro o conseguisse teria em mãos uma mina de ouro de valor incalculável — a riqueza do futuro estava naquela coisa a que a miudagem da informática chamava “Internet”.
Esta ânsia depressa se transmutou num irresistível toque de Midas. Chavões como “multimédia”, “interactivo”, “digital”, “e-commerce” e “online” eram tão hipnóticos para os investidores que qualquer empresa tecnológica acabada de fundar nos EUA angariava milhões de dólares de capital numa questão de semanas. Sillicon Valley enfardava-se de dinheiro, catapultando os seus jovens empreendedores informáticos ao estrelato. Pagos a peso de ouro, estes “marrões dos computadores”, muitos com menos de 25 anos, de bom grado aproveitavam para viver luxos e excessos imperiais. A opulência da revolução cibernáutica não estava só à vista, estava ao alcance de todos. E ninguém queria ficar de fora.
SOBE, SOBE, BALÃO, SOBE...
Era o arranque da febre digital, que atingiria o auge com o lançamento das ofertas públicas iniciais destas empresas na bolsa. Impulsionadas por vastas e caríssimas campanhas de
marketing, as acções chegavam a valorizar mais de 500% num só dia, deixando especuladores e analistas em delírio. Até bastava que uma companhia juntasse “e-” ou “.com” ao seu nome para aumentar de imediato a sua cotação. Mas onde estavam os planos de negócios? E os lucros reais? Isso não interessava. A Internet era um mundo inaudito, em cujas regras novas e revolucionárias não havia lugar para modelos clássicos. Afinal, a confiança estava ao rubro. Para quê parar para pensar?
Mas alguém parou. E mais do que um. E logo ao mesmo tempo. Foi simples coincidência que títulos fortes, como IBM, Dell e Cisco, tivessem tido ordem de venda simultânea em grande volume numa só manhã, mas foi o que bastou para que os investidores pela primeira vez hesitassem. “Se há muita venda, pouco há que renda”, terrível pensamento que logo fez mergulhar o mercado numa espiral de desconfiança e pânico: vender, vender, vender era o clamor do dia. No final da tarde dessa segunda-feira, 10 de Março de 2000, todo o capital de dezenas de empresas “.com” tinha literalmente caído à terra.
Perderam o capital? Mas como? Porque haviam crescido à força de
expectativas em vez de solidez de negócio. Com a promessa de lucros
brutais no canal online, granjearam tanto financiamento inicial que conseguiram disfarçar os seus balanços mensais magros ou mesmo negativos. Assim que as acções, de tão sobrevalorizadas, caíram a pique, o dinheiro esvaiu-se instantaneamente. O balão tinha estourado.
CRISE EM CONSTRUÇÃO
Só que pior a emenda que o soneto. Para mitigar o desastre, a Reserva
Federal norte-americana injectou forte liquidez no mercado, que logo se
concentrou noutro sector: o imobiliário — para o qual muitos
especuladores do “.com” se tinham ido refugiar. Não tardou que a
confiança cega nessa liquidez levasse a um aumento desmesurado dos
empréstimos bancários para compra de casa, na ilusão de que as pessoas
os poderiam pagar. Estavam errados. Daí à crise do subprime, influenciador directo da actual recessão, foi só um passo.
Então que lições a reter desde então? Que se quiser esmagar a raiz da crise deve começar por destruir o seu computador? Certamente que não, mas há traços comuns a estes colapsos sucessivos: o excesso de confiança, a irracionalidade, o efeito rebanho. Embora, pela sua própria natureza, o mercado financeiro seja volátil, estes malogros demonstram que prevalece sempre uma máxima fundamental: qualquer investimento irreflectido em empresas que não gerem lucros reais está destinado ao fracasso. E em tempos de crise, o fracasso nunca pode ser uma opção.
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