A Internet é um dos responsáveis da actual crise financeira?

22 Julho 2009

Recue nove anos na sua memória. O que estava a fazer ao meio-dia de 10 de Março de 2000? Possivelmente, preparava-se para almoçar, mas enquanto o seu estômago ansiava pela refeição, o de centenas de milhares de investidores em todo o mundo tinha nesse preciso momento acabado de apanhar com um valente murro. Um golpe virtual, é certo, mas suficientemente forte para abalar a economia. E quem foi o culpado? Está a olhar para ele.

ADMIRÁVEL MERCADO NOVO

Em meados da década de 90, o computador abria as portas a um gigante desconhecido. Nesse misterioso universo, interligado por uma super-auto-estrada de informação, não havia fronteiras, nem limites, nem regras fixas. Mas havia gente. Mais do que num continente inteiro. Gente jovem, activa noite e dia, cheia de dinheiro, vontade de o gastar e com um canal de acesso imediato a todo o tipo de produtos! Só era preciso vender-lhos, e quem primeiro o conseguisse teria em mãos uma mina de ouro de valor incalculável — a riqueza do futuro estava naquela coisa a que a miudagem da informática chamava “Internet”.

Esta ânsia depressa se transmutou num irresistível toque de Midas. Chavões como “multimédia”, “interactivo”, “digital”, “e-commerce” e “online” eram tão hipnóticos para os investidores que qualquer empresa tecnológica acabada de fundar nos EUA angariava milhões de dólares de capital numa questão de semanas. Sillicon Valley enfardava-se de dinheiro, catapultando os seus jovens empreendedores informáticos ao estrelato. Pagos a peso de ouro, estes “marrões dos computadores”, muitos com menos de 25 anos, de bom grado aproveitavam para viver luxos e excessos imperiais. A opulência da revolução cibernáutica não estava só à vista, estava ao alcance de todos. E ninguém queria ficar de fora.

SOBE, SOBE, BALÃO, SOBE...

Era o arranque da febre digital, que atingiria o auge com o lançamento das ofertas públicas iniciais destas empresas na bolsa. Impulsionadas por vastas e caríssimas campanhas de marketing, as acções chegavam a valorizar mais de 500% num só dia, deixando especuladores e analistas em delírio. Até bastava que uma companhia juntasse “e-” ou “.com” ao seu nome para aumentar de imediato a sua cotação. Mas onde estavam os planos de negócios? E os lucros reais? Isso não interessava. A Internet era um mundo inaudito, em cujas regras novas e revolucionárias não havia lugar para modelos clássicos. Afinal, a confiança estava ao rubro. Para quê parar para pensar?

Mas alguém parou. E mais do que um. E logo ao mesmo tempo. Foi simples coincidência que títulos fortes, como IBM, Dell e Cisco, tivessem tido ordem de venda simultânea em grande volume numa só manhã, mas foi o que bastou para que os investidores pela primeira vez hesitassem. “Se há muita venda, pouco há que renda”, terrível pensamento que logo fez mergulhar o mercado numa espiral de desconfiança e pânico: vender, vender, vender era o clamor do dia. No final da tarde dessa segunda-feira, 10 de Março de 2000, todo o capital de dezenas de empresas “.com” tinha literalmente caído à terra.

Perderam o capital? Mas como? Porque haviam crescido à força de expectativas em vez de solidez de negócio. Com a promessa de lucros brutais no canal online, granjearam tanto financiamento inicial que conseguiram disfarçar os seus balanços mensais magros ou mesmo negativos. Assim que as acções, de tão sobrevalorizadas, caíram a pique, o dinheiro esvaiu-se instantaneamente. O balão tinha estourado.

CRISE EM CONSTRUÇÃO

Só que pior a emenda que o soneto. Para mitigar o desastre, a Reserva Federal norte-americana injectou forte liquidez no mercado, que logo se concentrou noutro sector: o imobiliário — para o qual muitos especuladores do “.com” se tinham ido refugiar. Não tardou que a confiança cega nessa liquidez levasse a um aumento desmesurado dos empréstimos bancários para compra de casa, na ilusão de que as pessoas os poderiam pagar. Estavam errados. Daí à crise do subprime, influenciador directo da actual recessão, foi só um passo.

Então que lições a reter desde então? Que se quiser esmagar a raiz da crise deve começar por destruir o seu computador? Certamente que não, mas há traços comuns a estes colapsos sucessivos: o excesso de confiança, a irracionalidade, o efeito rebanho. Embora, pela sua própria natureza, o mercado financeiro seja volátil, estes malogros demonstram que prevalece sempre uma máxima fundamental: qualquer investimento irreflectido em empresas que não gerem lucros reais está destinado ao fracasso. E em tempos de crise, o fracasso nunca pode ser uma opção.

Em 1998, as acções da theGlobe.com treparam dos 9 aos 97 dólares no 1.º dia de oferta, transformando os seus jovens fundadores em multimilionários.
Com 188 milhões de dólares de capital angariado, a britânica Boo.com gastou tudo em 6 meses sem nunca ter apresentado lucros. Faliu pouco depois.
A Google foi das poucas empresas que sobreviveram ao crash tecnológico, pois aproveitou para investir na infra-estrutura do seu motor de busca.
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Jorge Salgueiro | 2009-10-21 00:34:00
E a história repete-se, vezes sem conta:

Uma vez, numa pequena e distante aldeia, apareceu um homem anunciando que compraria burros por € 10,00 cada.
Como havia muitos burros na região, os aldeões iniciaram a caçada ao burro. O homem comprou centenas de burros a € 10,00, e como os aldeões diminuíram o esforço na caça, o homem anunciou que pagaria 20,00€ por cada burro.
Os aldeões foram novamente à caça, mas logo os burros foram escasseando e os aldeões desistiram da busca. A oferta aumentou então para 25,00€ e a quantidade de burros ficou tão reduzida que já não havia mais interesse em caçá-los. O homem então anunciou que compraria cada burro por 50,00€! Mas, como iria à cidade, deixaria o seu assistente cuidando da compra dos burros.
Na ausência do homem, o seu assistente propôs aos aldeões: - "Sabem os burros que o homem vos comprou? Eu posso vendê-los a vocês a 35,00€ cada. Quando o homem voltar da cidade, vocês vendem-nos a ele pelos 50,00€ que ele oferece, e ganham uma boa massa".
Os aldeões pegaram em suas economias e compraram todos os burros ao assistente.
Os dias passaram-se, e eles nunca mais viram nem o homem, nem o seu assistente: Sómente burros por todos os lados.

Ruca | 2009-07-23 15:33:00
pois é...
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