Os bens alimentares e as suas previsões

 

28 Maio 2009

Desde a antiguidade que a agricultura, para além de ser uma necessidade básica do homem, foi fonte de poder. No todo poderoso Egipto, o excesso de oferta em trigo, guardado em celeiros - a primeira riqueza acumulada – serviu não só de garantia à segurança alimentar, como tornou o Egipto no epicentro das transacções do comércio alimentar com os povos vizinhos.
Já mais perto de nós, as últimas décadas do século XIX, o período entre 1870 a 1900, ficaria conhecido como a era do “boom deflacionário”. Nesses anos de ascensão do Novo Mundo, com um governo federal desejoso de incentivar um desenvolvimento rápido e uma expansão para o oeste, a abertura das pradarias à agricultura provocou uma queda vertiginosa do preço dos cereais. As extensões, cada vez maiores, de terra virgem entregues à exploração agrícola aumentava a oferta de bens alimentares, cujos excedentes começaram a escoar para o resto do mundo. 
Na Europa, no Velho Continente, enquanto o agricultor rural olhava pela sua pequena propriedade com rotações de culturas, os excedentes do Midwest, que se transformava no grande celeiro da América, iriam arruinar muitos proprietários com dificuldade em competir e adaptar-se ao impiedoso ciclo de deflação. A terra já não lhes pagava o necessário para continuarem a viver dela e se, durante séculos, na Europa, a regra era nascer, viver e morrer na mesma região, a queda acentuada dos preços agrícolas, gerou uma convulsão cujo resultado conduziu a um êxodo populacional - o interior agrícola despovoou-se e muitos procuraram trabalho nas cidades. Iniciava-se a moderna economia alimentar baseada no modelo “larga escala, baixo custo”.


Arthur Lavine
Farmers Checking Grain for Moisture, Kansas, 1951

O relatório, divulgado há dias pela OCDE-FAO, “Agricultural Outlook 2009-2018”, prevê que os preços dos bens alimentares, já reajustados dos elevados níveis atingidos em 2008, deveram aumentar nos próximos dez anos em cerca de dez a vinte por cento em relação à média do período 1997-2006, mas nunca para os níveis de 2008, sendo que o sector agrícola, como adianta o estudo, será o que melhor resistirá à actual crise.

Contudo, e embora o estudo reconheça que fazer projecções a dez anos seja uma tarefa complexa e difícil, atendendo à elevada vulnerabilidade a que está sujeito o sector agrícola - alterações climáticas, escassez cada vez maior dos recursos hídricos, crescimento exponencial da população mundial – não deixa de ser curioso que os modelos em que assentam as projecções do estudo não reflictam, (nem sequer ao longo do extenso relatório sejam alguma vez referidas), as mudanças que a duplicação dos preços dos bens agrícolas no ano de 2008 provocaram nas políticas agrícolas de muitos países - exemplo paradigmático é a política recente de “outsourcing” agrícola dos Emirados Árabes Unidos.

Com a acentuada subida dos preços dos bens agrícolas que testemunhámos no ano passado, países como a Ucrânia e a Índia, a fim de protegerem o seu mercado interno, proibiram a exportação de trigo. Outros, como a Argentina, subiram as taxas de exportação e certamente há ainda quem se lembre, faz agora um ano, da breve corrida ao arroz que fez esvaziar as prateleiras dos nossos supermercados, quando surgiram rumores que a China iria proibir a exportação desse bem alimentar. Países com escassez de terras de cultivo, como os Governos dos Emirados Árabes, entraram em pânico ao perceberem o elevado risco que corriam - face à política de protecção dos países produtores – em não conseguirem garantir a sua segurança alimentar, pois nem mesmo os lucros do ouro negro lhes podiam valer. Para ultrapassar tal risco, os governos árabes e não só, têm vindo a comprar em larga escala terras de cultivo em África. Só no Sudão, os árabes já compraram cerca de 400 000 hectares, que corresponde a cerca de um quinto da sua terra cultivada. Com os governos envolvidos directamente nos negócios, é já evidente as rápidas mudanças na economia alimentar global. Ao comprarem as terras para garantirem as suas próprias produções, que depois transferem para o país - deixando de comprar nos mercados mundiais - não só africanos como o resto do mundo poderão ver-se a braços com uma grave crise de insegurança alimentar.
Se as plantações de “ponta a ponta”, iniciadas na América nos finais do século XIX, deitou por terra os preços dos cereais e durante anos “the returns in agriculture haven’t looked sexy” como diz numa entrevista à revista Fortune (June 29), Shonda Warner, ex-trader da Goldman Sachs, agora, como acrescenta Warner, “I think that’s about to change”. Como ela, muitos outros, sendo George Soros um deles, apostam na compra de terras de cultivo à espera “the coming global agriculture boom”. Para estes investidores, a quebra de reservas alimentares, que provocaram pânico no ano passado, foi só um sinal do que estará para vir e, como diz o guru Jim Rogers: “I’m convinced that farmland is going to be one of the best investments of our time”.

Como já ninguém duvida, 2008, foi o ano que mudou o mundo. Não deveria a crise actual incitar estes organismos, como a Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE) e a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), a repensarem os seus modelos de previsão?

 

 
Madalena Colaço

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