Porque não arremataram os chineses a Chrysler e a General Motors?

15 Junho 2009

Os pedidos de insolvência da Chrysler e da General Motors, ao abrigo do Chapter 11 dos Estados Unidos da América, constituíram, para muitos, um momento histórico na indústria automóvel mundial. Durante décadas, à frente dos maiores construtores mundiais, os dois gigantes não resistiram e vergaram perante a actual crise.

Mas nem sempre a história se repete, e enquanto se vivia a Grande Depressão, na ilha de Manhattan, onde o “Big Bang” eclodira, os dois grandes magnates da indústria automóvel de Detroit, Walter P. Chrysler e John Jakob Raskob da General Motors, agora em falência, andavam ao despique pelo símbolo de ambição e poder americano – erigir o edifício mais alto do mundo. Em 1930, construir um arranha-céus, com setenta e sete andares e trezentos e vinte metros de altura, coroado por uma reluzente agulha de aço inoxidável, era pura pornografia, mas para Walter Chrysler, um passo separava o poder da fantasia, e o Chrysler Building como lhe chamou, para além do mais alto tinha de ser exuberante e original, um verdadeiro hino aos carros que o tornaram famoso e rico. A estrutura de ferro, revestida de metal polido, foi decorada com emblemas da era automóvel: as janelas triangulares nas arcadas da agulha sugerem os raios de uma roda, e no 30º andar, as goteiras em forma de águias, e no 30º andar, as goteiras em forma de águias, assemelhavam-se às enormes tampas de radiador dos Chrysler. 

No dealbar da crise, Nova Iorque parecia enlouquecer com a corrida vertical e os recordes em altura não se mantinham por muito tempo. Em poucos meses, a uns escassos quarteirões de distância, o Chrysler Building, era ultrapassado por uma torre que se tornou ainda mais famosa. Diz-se que Jakob Raskob chamou o arquitecto William Frederick Lamb, pegou num daqueles lápis-jumbo então na moda, plantou-o verticalmente na secretária e perguntou-lhe até que altura podia crescer um edifício sem cair. O resultado foi o Empire Estate Building. Agora, era o magnata da General Motors que festejava a vitória, e a 1 de Maio de 1931, o então presidente Herbert Hoover, carregando num simples botão em Washington D.C., fazia acender as luzes feéricas do maior edifício do mundo. Num país onde a miséria se alastrava, a maior parte dos andares permaneceram vazios, e rapidamente o edifício tomou a alcunha de Empty Estate Building.

Por vezes a história parece repetir-se, e em muitos aspectos, Pequim, que recebeu no ano passado os Jogos Olímpicos, e que para a construção das infra-estruturas necessárias chamou os melhores arquitectos do mundo, parecia, tal como a Nova Iorque dos anos 1930, enlouquecer com a pujante corrida vertical e os recordes em altura. A 8 de Agosto de 2008, com a crise a alastrar, o mundo olhou extasiado para as luzes feéricas, (não do Empire Estate), mas da inauguração dos Jogos.

Ao abrir as portas ao mundo em 1978, a China, sem tecnologia e tempo para desenvolver de origem um motor de automóvel de alto rendimento, começou por comprar e copiar os modelos das ferramentas que fabricavam as peças de um automóvel. Durante anos, para os países desenvolvidos, a China não passava de um produtor de peças baratas mas sem marca. Não se aperceberam contudo, que no virar do século, uma silenciosa crise industrial se alastrava nas pequenas e médias empresas do Midwest americano, que fabricavam as peças que alimentavam as linhas de montagem de Detroit. Sem conseguirem competir com os preços incrivelmente baixos da produção chinesa, milhares dessas empresas, abriram falência, deixando no desemprego perto de 3 milhões de trabalhadores no sector da indústria. Em quase todos os leilões de massa falida que se realizavam no Midwest, apareciam chineses a tentar arrematar maquinaria, processos técnicos e métodos de funcionamento já amortizados. A China percebera que a melhor maneira de subir na escada tecnológica era comprar o que não tinha para ultrapassar o seu grande obstáculo tecnológico.

Para os grandes de Detroit, que beneficiavam com a externalização, tudo parecia correr bem, e ao financiarem as campanhas da maioria dos congressistas com assento em Capitol Hill, eram elas que controlavam as atitudes políticas em relação ao sector.

Mas o que aconteceu às pequenas e médias empresas industriais nos últimos anos, está agora a acontecer às grandes.

Exceptuando a Hummer, uma das marcas da GM, de veículos todo-o-terreno do Exército dos Estados Unidos, comprada logo no início do pedido de insolvência pela Tengzhong Industrial Machinery Company, um fabricante chinês sem experiência na indústria automóvel, é altura de questionar: porque não apareceram as empresas chineses a arrematar as marcas da GM e da Chrysler?

A dimensão do mercado chinês deu a Pequim um peso especial, e no sector automóvel, a perspectiva sedutora de milhões trocarem a bicicleta a pedal por um automóvel, venceram os receios das restrições impostas pelo Governo chinês, que obriga as empresas estrangeiras a constituir parcerias com empresas estatais escolhidas pelo Governo, e onde são obrigadas a transferir a sua tecnologia.

A GM China, a parceria da GM com a empresa estatal, Shanghai Automotive Industry Corp., está a salvo e é rentável. Se nos Estados Unidos as vendas caíram, na China a GM China, vendeu, nos primeiros meses deste ano mais de 670 000 veículos e só em Maio a empresa cresceu 75% em relação ao ano transacto. A dimensão do mercado chinês não os defraudou, mas a que custo?

Ao arrancar o know-how das empresas estrangeiras, com a tecnologia necessária para desenvolver e construir novos motores, a China chegou ao topo da escada tecnológica e já não precisa de ir aos leilões. Actualmente, no país, a GM China concorre com centenas de outras empresas chinesas do sector.

Wang Chuanfu, fundador da empresa BYD Company, um fabricante privado de carros híbridos, que actualmente emprega 130 000 trabalhadores em sete fábricas espalhadas pela China, questionado sobre a insolvência da GM e da Chrysler respondeu: “For 100 years, nothing has changed in Detroit, I think they need to reconsider their product lines”.

Agora os papéis estão invertidos, e é o mundo desenvolvido que parece não conseguir bater a China. Sinal disso, foi a recente visita ao país do secretário do Tesouro americano, Timothy Geithner, que perante uma plateia de alunos universitários chineses, ouviu uma gargalhada geral, quando assegurou, com ar sério, que os activos chineses em dólares não corriam risco.


Madalena Colaço

 

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José Fernandes | 2009-07-20 16:00:00
Aí está uma das muitas razões do sucesso chines
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