Num artigo publicado no Financial Times intitulado “Europe’s crisis is all about the north-south split”, o ex-presidente da Reserva Federal, Alan Greenspan, sugere a países como Portugal, com taxa de poupança negativa e excesso de consumo, a seguirem o modelo económico dos países do norte da Europa, que em lugar do consumo imediato apostam no investimento a longo prazo. Além disso, prossegue Greenspan, “para que o euro continue a ser uma divisa viável, os membros da zona euro têm de se comportar responsavelmente, em acordo com o Tratado de Maastricht”, para logo de seguida revelar o seu cepticismo ao referir “que a cultura, factor tão integrante na personalidade de um país, não é facilmente alterada”. No mesmo dia, 7/10/11, na cadeia de televisão CNBC, Greenspan admitiu que o euro teria resultado se fosse partilhado apenas por países do Norte do Velho Continente.
A questão Norte vs Sul é velha de anos. Entre 1835 e 1840, Alexis de Tocqueville, um aristocrata francês que se deslocara à América durante nove meses para estudar a Constituição dos Estados Unidos, publicou, em dois volumes, A Democracia na América. No capítulo “O futuro dos Estados-Unidos”, Tocqueville profetizou que: “os Americanos dos Estados-Unidos encontram-se, em relação aos povos da América do Sul, precisamente na mesma situação em que se encontravam os seus antepassados Ingleses em relação aos Italianos, Espanhóis, Portugueses, e a todos os povos da Europa de civilização e indústria menos avançadas a quem forneciam a maior parte dos objectos de consumo”.
Mesmo dentro da União, Tocqueville observou, que os americanos das regiões Norte, cuja instabilidade, inquietação e ambição de riqueza os arrastavam para fora da sua habitação, levavam consigo crenças, opiniões, costumes e conhecimentos superiores aos do Sul. Essa migração constante do Norte para o Sul, favoreceu não só a fusão de todos os tipos regionais num único tipo nacional, como permitiu aos novos migrantes apoderarem-se da direcção dos negócios do Sul e modificarem a sociedade em seu proveito - “a civilização do Norte parece portanto destinada a servir um dia de modelo comum para todas as outras regiões…”. Terá Greenspan relido recentemente Tocqueville?
Na pátria dos seus antepassados Ingleses, os progressos científico e técnico do séc XVIII modificaram profundamente o desenvolvimento económico do Ocidente. A energia muscular de homens e animais era substituída por uma máquina – a máquina a vapor – o grande ícone da Revolução Industrial que funcionava na base de transformação sucessivas de formas de energia. Os novos motores de desenvolvimento eram agora as indústrias emergentes – têxtil, cerâmica, metalo-mecânica e naval. Em termos de inovação e descoberta, o Norte de Inglaterra e Escócia passaram a competir com a (e a levar a melhor à) metrópole londrina. Era no Norte que estavam a acontecer as coisas interessantes. Melhor ainda, era no Norte que estavam as pessoas interessantes, e chamaram ao fenómeno a Renascença Escocesa. O Sul agrário da Inglaterra não apreciava a ciência.
Também o alemão Thomas Mann, no seu primeiro romance, Os Buddenbrook, (1901), pinta o retrato de uma família burguesa de comerciantes do Norte da Alemanha ao tempo da unificação alemã. Nos seus diálogos está bem patente a forma como os comerciantes do Norte olhavam para os bávaros de Munique: “E como vão os negócios, senhor Permaneder?”, pergunta o cônsul Buddenbrook ao seu futuro cunhado, um comerciante de lúpulo de Munique. “Que lhe posso dizer? Aquilo é um flagelo! Veja bem, Munique não é uma cidade voltada para o comércio…Ali as pessoas só pensam no seu sossego e na caneca de cerveja…Aqui no norte há outro brio…E depois esta maldita concorrência…”. Mas o que chocara mais Tony, irmã do cônsul Buddenbrook, que acabara de casar com Permaneder levando consigo o dote fixado pelo testamento do seu pai, foi ouvir o marido dizer-lhe, mal se instalaram em Munique: “Não precisamos de mais do que aquilo que temos…Amanhã despeço-me da firma e começo a viver dos rendimentos!”. Greenspan parece ter razão no seu cepticismo, parece difícil alterar costumes tão enraizados.
Se por coincidência ou sorte a Providência pareceu beneficiar o Norte ao escolher para sede das jazidas de carvão e ferro - as matérias primas que alimentaram a Revolução Industrial – os Midlands (Inglaterra), o Ruhr (Alemanha) e a Pennsylvania (América), o certo é que sem o empreendedorismo e amor à ciência, o Norte não se teria tornado o centro do progresso. Regressemos à questão central de Greenspan - “Europe’s crisis is all about the north-south split”, será? Durante séculos, pese embora as diferenças culturais entre Norte e Sul o mundo progrediu e evoluiu.
Nesta época de crise, os peritos repetem que Portugal só poderá sair da crise se diminuir o consumo e aumentar as exportações. É pela via das exportações que poderemos crescer – ouvimos todos os dias pela enésima vez. O mesmo slogan repete-se pelo mundo fora. Ben Bernanke, o actual presidente da Reserva Federal Americana, foi altamente criticado pela China, ao utilizar a política monetária do Quantitative easing I e II (QE), para estimular a economia. Para a China tratou-se de uma manobra dos Estados Unidos desvalorizarem o dólar, e poderem assim aumentar as exportações. A China, por sua vez está a ser alvo de sanções no Congresso americano em teimar em não permitir a valorização do yuan. Para conter a inflação os chineses preferiram subir várias vezes as taxas de juro e as reservas dos bancos, a valorizarem a sua divisa, com receio do impacto negativo que isso possa trazer às empresas exportadoras. O ministro brasileiro Guido Mantegna , lançou a frase “ guerra de divisas” que se tornou célebre e os exemplos continuam.
O modelo económico da China, Alemanha e Japão, os países com os maiores excedentes comerciais do mundo, tem como pilar a exportação, e são apontados, como referiu Greenspan, o modelo a seguir para o crescimento das economias mais fracas. Na Alemanha, o último número das vendas a retalho caiu 2,9%, a maior queda desde Maio 2007, o que revela que o consumo interno do país continua a decrescer. Impõe-se a questão: se todas as economias do mundo seguirem o mesmo modelo, quem irá consumir?
Na primeira reunião do G20, em plena crise mundial, a elite política intuiu o mal do mundo – os desequilíbrios colossais existentes entre países. Tentar equilibrar só um dos lados da balança, como sugere Greenspan, será sempre inútil pois enquanto a Alemanha, China e Japão não aumentarem o seu consumo interno o desequilíbrio mundial permanecerá uma ameaça. É necessário que no próximo G20 a intuição seja levada à prática para que a balança se equilibre.
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