Será que a Europa ainda dança?



Junho 2010

Em Julho de 2007 o crédito barato e abundante começou a escassear, mas o então presidente do Citigroup, Chuck Prince, comentava o seguinte ao Financial Times : “Quando parar a música, em termos de liquidez, as coisas vão complicar-se. Mas enquanto a música tocar, temos de nos levantar e dançar. Ainda estamos a dançar”. Não dançou por muito mais tempo, em Novembro, Prince, era obrigado a deixar o Citi, e a reserva federal, liderada por Bernanke não tardou em descobrir o que acontece quando pára a música. 

O seu erro, como reconheceu mais tarde numa entrevista, foi pensar que os danos estavam limitados ao crédito “subprime”: “afinal como era possível que os prejuízos do “subprime” que envolviam uma quantidade de dinheiro equivalente ao volume de negócios de um dia na bolsa pudessem fazer grande diferença na economia?”. Bernanke e Geithner acreditaram que os bancos tinham capital de sobra para absorver os prejuízos do “subprime”. Enganavam-se, e o pior, como agora todos sabemos, estaria ainda para vir. 

Nesta semana o mercado abriu em queda, a CajaSur, uma pequena caixa de poupanças da Andaluzia era resgatada no Sábado pelo Banco de Espanha, por temer a sua insolvência. Um analista da PIMCO descreveu assim o problema: “um pequeno banco numa pequena economia mostrou ao resto do mundo como o sistema bancário europeu está sob pressão”. 

Durante a semana não faltaram alertas: o FMI veio dizer que a Espanha precisava urgentemente de reestruturar o seu sistema bancário e Geithner, na sua visita pela Europa, pressionou os líderes europeus a promoverem “stress tests” à banca à semelhança do que os EUA fizeram na sequência da crise do “subprime”. 

O Wall Street Journal, no artigo “Europe’s Banks Hoard Cash”, anunciava que o crédito barato e abundante está a escassear. As subidas das taxas Euribor e Libor (ainda assim muito longe dos valores que atingiram durante a crise do “subprime”) o reflexo da menor disponibilidade de liquidez, com os bancos a mostrarem-se cada vez mais relutantes em emprestarem dinheiro entre si, preferindo, mesmo a taxas reduzidas, dos depósitos seguros no BCE. Numa conferência de imprensa no âmbito do Portuguese Day na bolsa de Nova Iorque, o presidente do BES veio dizer que o mercado interbancário está fechado, “houve uma secagem brutal de liquidez” e alertou que os bancos vão ter de se financiar mais através da captação de depósitos e do BCE. 

Quarta-feira foi a vez do Financial Times avançar com a notícia de que o fundo que gere as reservas chinesas estava preocupado com as obrigações dos países do sul da Zona Euro, e que era provável que reduzisse a sua exposição. Os mercados tremeram, para recuperarem no dia seguinte, em euforia, com o comunicado do Banco Central Chinês que garantiu que o euro continua a ser uma aposta de longo prazo. Se o Financial Times insiste que a preocupação na China é real, a Europa levantou-se e mostrou que ainda está a dançar. Será que chegou a hora de Trichet descobrir o que acontece quando pára a música? 

Encurralada entre a China e a América a Europa parece agora mais pequena, e se ainda ganha prémios na arte de bem dançar, certamente que não será por muito tempo...

 

 
Madalena Colaço

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