O fim do “ouro negro” ou o regresso à “boa forma”?



Setembro 2009

“A idade da pedra não acabou por falta de pedra, mas por uma alteração de paradigma comportamental da sociedade a que a Ciência foi sucessivamente dando respostas de crescente sofisticação e potencial de melhoria de qualidade de vida”.

Quando a 11 de Julho de 2008 o preço do barril do petróleo atingia no mercado de futuros os 147 dólares, consumidores e produtores, viram nessa subida vertiginosa de anos, a confirmação de que o filão do “ouro negro” atingira o seu pico produtivo. Não reagindo ao presente, mas às expectativas futuras, a subida imparável dos preços, dos 30 dólares em 2003 para os 147 em 2008, era induzido pelo sentimento de um desequilíbrio crescente entre uma oferta incapaz de satisfazer o ritmo feroz da procura.



Richard Misrach, Taft, Louisiana, 1998

  

Se a idade da pedra não acabara por falta de pedra, o mesmo parecia não acontecer com o petróleo, cujas reservas, a almofada mundial que permitira manter os preços baixos nos últimos vinte anos do século XX, pareciam ter-se esgotado e chegado ao fim. Com os grandes campos petrolíferos a entrarem em declínio, constou, que a Arábia Saudita, o produtor mais influente da OPEP, já não dispunha da opção de abrir as torneiras para estabilizar o preço do petróleo nos mercados mundiais. Perante a aparente incapacidade de repor a procura mundial, a poucos dias do barril atingir o máximo, nesse 11 de Julho de 2008, um representante da OPEP, Chakib Khelil, desenhava um cenário catastrófico, ao anunciar que o preço poderia chegar aos 600 dólares, (mais 400 das previsões à época da Goldman Sachs e da Morgan Stanley), se o Irão bloqueasse o Estreito de Ormuz, uma das chamadas “Danger Zones”, se sentisse ameaçado ou provocado a cancelar o seu programa de enriquecimento de urânio.

Se hoje este cenário nos faz sorrir, há um ano, o futuro em matéria energética revelava-se bastante sombrio, bastando uma perturbação, para que o equilíbrio demasiado precário entre a oferta e a procura, resultasse numa catástrofe.

A consciência de que as energias alternativas não eram suficientes para uma transição capaz de sustentar o nível de vida que os combustíveis fósseis nos tinham habituado, ajudaram ao pânico.

Para a OPEP, a capacidade excedentária que durante anos, 1981-2001, permitira-lhe controlar o ciclo para restabelecer o equilíbrio - aumentar as quotas de produção quando os preços subiam, e o corte quando os preços desciam – parecia ter-se evaporado inesperadamente.

Ontem os ministros da OPEP, que se reuniram em Viena, deixaram novamente as quotas de produção inalteradas, e o ministro do petróleo da Arábia Saudita, Ali al-Naimi, veio dizer que o mercado mundial de petróleo está em “boa forma”. Podemos questionar: será que o mercado do “ouro negro” regressou à “boa forma”? Será que a capacidade excedentária de produção, o factor chave que permite o controle dos preços na banda desejada, (65-75 dólares), regressou à OPEP? Será que os cenários catastróficos, de há um ano atrás, estão longe de regressar? 

Para alguns analistas, como o economista chefe da Agência Internacional de Energia, o risco real de uma catástrofe não é de excluir. O declínio dos grandes campos petrolíferos e o cancelamento de grandes investimentos em exploração e prospecção, resultante da acentuada quebra do preço no final de 2008 e início de 2009, são para alguns analistas factores que poderão induzir novamente a uma escalada dos preços, logo que a economia mundial dê sinais de retoma. O excesso de oferta que actualmente existe, como os 130 milhões de barris armazenados em petroleiros no alto mar à espera de escoamento, é apenas transitória, pois consequência da retracção na procura nestes últimos meses.

Regressemos à questão chave: será que a capacidade actual da OPEP é temporária ou permanente?

Desde sempre, que para os sauditas, conseguir manter os preços do petróleo numa banda, foi sinal de poder. A capacidade em aumentar ou reduzir a produção - a sua arma para punir os especuladores que tentassem ultrapassar tais limites.
Para Riade, perder a capacidade excedentária, é perder poder e influência quer no G-20, quer noutros fóruns internacionais e desde 2003, consciente deste facto, que a gigante Aramco, tem investido no desenvolvimento de novos recursos que lhe permitam aumentar a sua produção. Se em 2002 a capacidade de produção saudita correspondia a 9,5 milhões de barris por dia, com os investimentos efectuados nestes últimos anos, e a abertura em Junho de um novo campo, permitiram ao país aumentar a sua capacidade para 12,5 milhões de barris por dia. Em resultado, a OPEP espera agora, que a sua capacidade de produção total possa exceder os 37 milhões de barris por dia já em 2010, o que permite a Ali al-Naimi, vir dizer que o “ouro negro” regressou à “boa forma”.

Será, que nos próximos meses, os especuladores arriscarão a ultrapassar os limites da banda?

Desde sempre a ciência foi útil junto ao poder, não só por uma questão de prestígio mas também pela utilidade das respectivas aplicações.

Se a idade da pedra não acabou por falta de pedra, mas por uma alteração de paradigma comportamental da sociedade a que a Ciência foi sucessivamente dando respostas, espera-se que a idade do petróleo não termine com o esgotamento dos combustíveis fósseis, e que a Ciência, através de energias alternativas menos poluentes, seja capaz novamente de alterar o comportamento da sociedade.

 
Madalena Colaço

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Mafig | 2010-03-09 09:47:00
Só falta responder à "questão chave: será que a capacidade actual da OPEP é temporária ou permanente?". A notícia não responde. Todos temos consciencia de que um dia o petróleo acaba, esperemos ter tempo para fazer o shift para as renováveis. Mafig
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