Será a China uma oportunidade ou um risco?

28 Maio 2009

Na teoria do caos e dos sistemas fortemente dependentes das condições iniciais aprende-se que o bater das asas duma borboleta na China pode vir a causar um tufão no Tennessee. Esta é uma das grandes descobertas do nosso tempo: os velhos ventos do Oriente e do Ocidente constituem um todo único, indissociável e indiscernível.
Perante a actual crise, a teoria científica do caos adapta-se aos domínios financeiro e económico.
Mas será que a poderemos transpor literalmente, ou seja, será que um bater de asas na China causou o tufão na América?

À primeira vista esta questão pode parecer estranha, pois todos nós sabemos, que a crise das hipotecas subprime, teve origem, não na China, mas nos Estado Unidos. Como os mercados têm pouca memória, é necessário recuar no tempo.

No virar do novo século, e em resultado das reformas rumo à liberalização que Deng Xiaoping iniciou em 1978, a China era finalmente admitida, (Dezembro de 2001), na Organização Mundial do Comércio. Ao concordar em seguir as normas globais, que regem as importações, exportações e o investimento estrangeiro, a China dava um passo de gigante na abertura ao mercado mundial.
Sem uma classe empresarial, aniquilada por anos de repressão política, o investimento estrangeiro foi o substituto e o caminho mais rápido para o desenvolvimento económico. Deng aplicou a sua máxima, “não interessa se o gato é preto ou branco, desde que apanhe ratos”, e a produção “Made in China”, nas zonas económicas especiais (ZEE), em que os bens importados pelas empresas para serem usadas nessas zonas eram isentas de tarifas e impostos, revelou-se um sucesso: durante anos a China liderou o crescimento económico mais rápido do mundo. O delta do rio das Pérolas, uma das primeiras zonas de (ZEE), que se estende de Guanzhou a Shenzhen, (o antigo Cantão), e suficientemente perto de Hong Kong, atraiu milhares de multinacionais e empresas estrangeiras, que viram, para além dos benefícios fiscais, a oportunidade de um país que oferecia uma mão-de-obra barata. Em contrapartida e no dizer de Deng, “a China podia aproveitar o capital dos países estrangeiros e a sua avançada tecnologia e experiência na gestão empresarial”. Com uma tradição científica milenária, era agora o Ocidente que representava o avanço da tecnologia e experiência. Alguns apontaram a lacuna grave que viram nessa estratégia de “porta aberta”: o estrangular, em lugar do estímulo, da iniciativa empresarial nacional. Outros questionaram se a China não pagara demasiado caro o investimento estrangeiro, ao oferecer incentivos fiscais difíceis de sustentar a longo prazo, ou seja, viam o gigante chinês a abraçar a globalização sem alicerces sólidos.
Mas ao fim de anos de crescimento económico exuberante, que tirou milhares da pobreza extrema, as famílias chinesas, cautelosas e pouco habituadas à panóplia de facilidade de crédito do Ocidente, pouparam uma parte invulgarmente elevada dos seus rendimentos. As poupanças foram tantas e tão abundantes, que os fluxos de capitais passaram a fazer-se no sentido inverso: do Oriente para o Ocidente. Gradualmente a República Popular da China transformava-se na banqueira dos Estados Unidos da América e o mercado inundou-se de dinheiro. Quanto mais a China se dispunha a conceder crédito, mais a América se dispunha a contrair empréstimos e a gastar. Ninguém percebia ou quis perceber, que o bater de asas na China estava a provocar um verdadeiro tufão na América. Afinal, com a irracionalidade das hipotecas do subprime, era assim tão difícil prever o tempo que ainda restava à bomba-relógio? Difícil de prever, (se é que alguém previu), foi o contágio desses incumprimentos hipotecários no sistema financeiro ocidental. Como era possível, que um pequeno mercado de hipotecas, (comparado à escala global), poderia paralisar os empréstimos interbancários mundiais?

Em 2 de Julho de 1997, o Banco da Tailândia entrava em crise ao deixar cair o baht. De repente, nos países vizinhos, as moedas desvalorizavam todas ao mesmo tempo, o contágio foi devastador, excepto na China, que ao desvalorizar o renbimbi (Rmb) em 1994, conseguia ficar incólume no meio do turbilhão.
Hoje a realidade é bem diferente. Ao venderem milhares de milhões de dólares em obrigações ao Banco Popular da China, a América têm de ouvir o que não gosta: “be nice to the countries that lend you money”, por outro lado os chineses vêem-se encurralados, pois sabem que: “by pulling out our money, we’re not serving anyone’s good, including ourselves”. Lembremos a teoria científica do caos: os velhos ventos do Oriente e do Ocidente constituem um todo único, indissociável e indiscernível. Foi o que aconteceu no virar do século. O mundo mudava, e de repente, a globalização batia-nos à porta com toda a sua força, não deixando ninguém de fora.

Contudo podemos questionar: será que a China, com a acumulação de reservas invejável que possuiu, conseguirá escapar incólume à actual crise? 

À primeira vista, a queda a pique das exportações dizem-nos que não. Em Abril, e seguindo a tendência dos meses anteriores, a taxa homóloga das exportações chinesas caíu 22%, mas as importações caíram ainda mais: 23%. Com uma Balança de Pagamentos excedentária em 13,1 biliões de dólares, (Abril), estará a China a declarar uma guerra comercial ao mundo?
Com as quedas sucessivas das exportações, nas zonas urbanas, o desemprego subiu em flecha. Sem grande futuro, milhares de migrantes deixam as cidades e retornam às aldeias. 

Num país com mil e seiscentos milhões de habitantes, a instabilidade social preocupa o presidente Hu Jintao.

Viciada no crescimento, promover o consumo interno tornou-se na grande prioridade do governo, que para tal lançou um plano de estímulo à economia no valor de 600 biliões de dólares, (maior que o proposto pela administração Obama, se compararmos as duas economias). A grande fatia destina-se à construção de infraestruturas, a uma escala nunca vista. Em Abril, um outro plano de estímulo foi anunciado pelo governo, agora destinado à assistência social, “e mais planos serão anunciados, consoante as necessidades”, disse recentemente um porta-voz do governo.

Com a Banca (dominada pelo Estado), pouco exposta aos “activos tóxicos”, em contraste com a Banca dos países ocidentais, que têm gasto milhões na limpeza desses activos, a China pode e vai às compras, pois para avançar com as gigantescas infraestruturas anunciadas, precisa de matérias- primas. O governo de Jintao não está a dormir, e nos últimos meses, aproveitou a queda acentuada dos preços para comprar em saldo toneladas de alumínio, cobre, ferro, petróleo…que o país vai armazenando em reservas. Em África, o governo chinês tem vindo a comprar milhares de hectares de terreno, que num futuro próximo, ajudarão a alimentar a sua população de milhões.
Mas para além disto tudo, com a paciência que os caracteriza, a China prepara-se para outro passo de gigante: “We have a special team monitoring Rio Tinto’s performance and market movements in real time and will evaluate the best timing to do the stake increase,”, disse recentemente, Youqing Lu, o vice presidente da Chinalco. A olhar para a Austrália, como o primeiro alvo da sua estratégia de investimentos, a China vai somando e tomando posições em empresas estrangeiras.

Se Deng foi criticado pelo país ter pago um preço demasiado elevado pelo investimento estrangeiro, Jintao, está determinado em reverter a situação, ao pretender transformar muitas das empresas estatais em actores globais importantes, e para tal, a modernização do mercado de capitais já está em marcha…

Numa Terra que é redonda, sem referencial ou ponto de partida, por hábito, continua-se a olhar para o Ocidente, para os Estados Unidos da América, para a referência ou ponto de partida, à espera dos primeiros sinais de retoma, enquanto a Oriente, a China avança.

Será a China uma oportunidade ou um risco? Regressemos à ciência, agora à mecânica quântica, ao mundo que não pode dar resultados exactos mas e somente probabilidades de ocorrências numa variedade de resultados. Heisenberg refutava a lei da causalidade que diz se conseguirmos determinar o presente, podemos calcular o futuro: mas o futuro, (como afinal todos nós sabemos), pertence ao domínio da incerteza e esta é uma das grandes descobertas do nosso tempo.

 

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Vitor Bruzzi | 2009-10-19 22:37:00
segue cmentário sobre china : risco ou oportunidade
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