O que tem na sua garrafeira? Diversos tintos e brancos, sem dúvida, e talvez um ou outro Porto ou garrafa de champanhe. Muito provavelmente, guardado à parte, estará o orgulho da sua colectânea, um uísque especial para momentos de rara e memorável perfeição. Mas o barril onde este seu ouro líquido envelheceu foi também usado para transportar um outro tipo de ouro: o crude! Calma, não vá já a correr à procura de detritos negros nas suas garrafas! Aconteceu há mais de 150 anos, mas teve influência directa na forma como hoje o petróleo é comercializado. AO BARRIL É BARIL Todos os dias, a expressão "dólares por barril" é pronunciada por centenas de milhares de pessoas no ramo do petróleo em todo o mundo, quer orgulhosamente em salas de reunião, quer à socapa nos corredores das redacções, quer estrondosamente boca fora no meio do bruá das bolsas de valores. Mas porquê barris? Será que as refinarias despejam petróleo directamente para dentro de contentores de madeira? É óbvio que não, mas tempos houve em que era exactamente isso que acontecia. Recuemos um século e meio no passado, até 28 de Agosto de 1859. Na manhã deste dia solarengo na vilazinha de Titusville, no estado da Pensilvânia, EUA, Edwin Drake não cabe em si de felicidade – o fundo do poço de 21 metros escavado pela sua equipa durante vários meses agoniantes está finalmente alagado com crude. Tinham alcançado a tão ansiada jazida! É o primeiro grande poço de petróleo explorado com tecnologia de perfuração, capaz de debitar copiosos volumes diários de crude. Drake usa banheiras de metal para o armazenar, mas o fluxo aumenta com tanta rapidez que só se pode vencer com recurso a outro meio, hermético e bem mais fácil de transportar: barris de madeira, aos quais os prospectores tentam deitar mão por todas as formas. E os de uísque, muito frequentes na região, passam a ser os mais procurados. Só que um barril, apesar de excelente recipiente para o crude, não podia ser empurrado aos rebolões dos campos para as estações de comboio, muitas vezes a dezenas de quilómetros de distância. Era preciso transportá-los em carruagens de proprietários locais, que não perderam tempo a instaurar monopólios. Ficava mais caro transportar crude 10 km a cavalo do que fazê-lo ao longo de 300 km entre a Pensilvânia e Nova Iorque... num comboio. PELO CANO ABAIXO Impiedosamente explorados, os exploradores desesperavam por uma solução, e eis que a encontram na natureza do próprio crude! Como é líquido, pode fluir; se flui, a gravidade e a pressão podem transportá-lo. Era assim que funcionavam as condutas de água – então que tal condutas de petróleo? Amplas redes de pipelines espalhadas pela vastidão destas terras áridas... A ideia ganhou pujança quando o empreendedor Samuel Van Syckel conseguiu instalar uma linha de tubos de ferro forjado ao longo de 8 km de terreno agreste. Equipado com quatro bombas, o primeiro oleoduto norte-americano debitava quase 2500 barris de crude por dia. Entretanto, do outro lado do mundo, no sul do Império Russo, uma equipa de engenheiros petrolíferos coloca em prática as teorias pioneiras do cientista Vladimir Shukhov, para quem um oleoduto constituía também o meio ideal de transportar crude. A sua primeira linha, operacional em 1878, tinha 12 km de extensão, mas Shukhov não tardou a projectar condutas de mais de 94 km, que, embora colossalmente longas para a época, pouco mais de simples tubinhos representavam ao pé dos gigantescos pipelines intercontinentais que viriam a proliferar nas décadas seguintes PETRÓLEO TENTACULAR De facto, até talvez o espírito visionário deste aclamado cientista russo dificilmente concebesse uma rede de 4000 km que abrangesse a Rússia, Ucrânia, Bielorrússia, Polónia, Hungria, Eslováquia, República Checa e Alemanha. Chama-se Druzhba (Amizade) e é o maior oleoduto do mundo, capaz de bombear 1,4 milhões de barris por dia, mais de 500 vezes o original de Van Syckel. Se pusesse uma bolinha de borracha no crude que entra em Almetyevsk, no Sudoeste da Rússia, e a fosse buscar no fim da linha em Schwedt, no Nordeste da Alemanha, teria nas suas mãos um objecto que atravessara uma distância superior a três Portugais de cima abaixo... e só tendo percorrido dois terços do oleoduto inteiro, pois a linha ramifica-se para sul, rumo à Europa Central. Apesar de descomunal, o Druzhba não deixa de ser apenas um dos milhares de pipelines que bombeiam crude por todo o planeta à velocidade prazenteira de um praticante de jogging. Todos os dias, o sonho de Van Syckel e Shukhov chega às gasolineiras mundiais, brotando desde as tundras do Alasca aos vales subtropicais da Coreia do Sul. Até mesmo em Portugal contamos com as nossas pequenas mais fiéis condutas industriais da Galp e BP. O mundo move-se ao sabor da corrente do oleoduto. Então porque não apreciar ao máximo esse sabor? Os benefícios do investimento no petróleo são fortes e com elevado potencial de sucesso. Que melhor forma de celebrar este êxito senão com um cálice? Então aproveite, dirija-se à sua garrafeira e faça um brinde de uísque em honra do oleoduto. Pois é nas tiras e anéis do barril deste seu álcool envelhecido que ecoa o espírito ancestral da febre do ouro negro. |