A queda do dólar



Outubro 2009

Com o petróleo a bater nos 80 dólares por barril e o euro a aproximar-se dos 1,50 dólares, a ligação petróleo-dólar regressou à discussão internacional e tornou-se tema dos noticiários económicos de todo o mundo. Até mesmo em Portugal, especialistas do sector, como Nuno Ribeiro da Silva, ex-secretário de Estado da energia, veio dizer há dias, na rádio, que o dólar – moeda que estabelece os preços de venda internacional do petróleo – deveria ser substituída por um “basket” de moedas de forma a suster a subida do petróleo, o que revela, a consciência crescente, do efeito que o enfraquecimento do dólar tem no aumento do preço do petróleo.

Há uns meses, em Abril, no fórum G20 que teve lugar em Londres, o governador do Banco Central Chinês, Zhou Xiaochuan, veio propor que o dólar – a actual moeda de reserva mundial – fosse substituído por um “basket” de moedas a ser gerido pelo Fundo Monetário Internacional. O governo chinês, ansioso por internacionalizar o renminbi, não perde oportunidade para incitar os bancos centrais a substituírem o dólar de reserva mundial, mas paradoxalmente, com um regime cambial pouco flexível e indexado ao dólar, a forte depreciação desta moeda, tem beneficiado as exportações chinesas, um dos pilares do seu crescimento.

  

Com o seu estatuto duplo, quer como moeda de reserva mundial, quer como moeda que estabelece os preços de venda do petróleo, poderá o dólar, no curto prazo, ser destronado globalmente? E se sim, porque moeda ou combinação de moedas?
Na Europa, muitos analistas e think-tank na matéria, são de opinião que o euro, quer pela falta de uma liderança forte da Europa quer pelos seus problemas económicos, não tem condições para substituir o dólar, e prova disso é que com a queda contínua do dólar e com toda a pressão mundial para se criar um novo sistema monetário internacional, ninguém pondera seriamente o euro como alternativa. À semelhança da Rússia, ansiosa por atribuir o preço das suas exportações de petróleo em rublos, dificilmente se qualificam como potências politicamente fiáveis - na Europa o euro identifica-se com o Banco Central Europeu, não com uma identidade política, para além do Reino Unido manter a sua libra esterlina.
A Oriente, os chineses, embora orgulhosos da pujança económica do seu país, (o PIB do 3º trimestre divulgado esta semana acelerou para os 9%), muitos não partilham da ideia de que a substituição do dólar se possa fazer no curto prazo, e muito menos pelo renminbi. Na opinião de Guo Shuqing, presidente do China Constuction Bank, um dos maiores da China, o dólar está a ser alvo de um grande pessimismo no mercado mas segundo Shuqing a sua substituição ainda está longe de acontecer, e como o próprio disse há dias “as long as the United States is still the most competitive and innovative economy, the US dollar will remain the most important currency and the global reserve currency”.

No Médio Oriente, os países produtores de petróleo, hesitam cada vez mais em aceitar dólares fracos em troca de um petróleo cada vez mais valioso. Já em 2007, a ligação petróleo-dólar tinha-se tornado muito badalada nas notícias, pois para os membros da OPEP, apesar da subida do preço do petróleo, as suas receitas reais estavam a decrescer por serem pagos numa divisa que lhes diminuía o lucro. Desde há uns anos, que o enfraquecimento do dólar tem aumentado o interesse destes países em duas respostas possíveis: reduzir ou acabar com o papel do dólar como moeda de reserva do mundo, ou estabelecer os preços do petróleo noutra divisa ou numa combinação de divisas.

Em 2000, o então homem forte do Iraque, Saddam Hussein, irritado pelas sanções das Nações Unidas, decidiu que as aquisições internacionais de petróleo a partir do Iraque seriam pagas em euros e não em dólares e aconselhava a OPEP a considerar uma mudança semelhante. Sete anos mais tarde, em 2007, a Companhia Nacional de Petróleo do Irão, exigia que o Japão pagasse os seus barris em ienes e ainda nesse ano, Hugo Chávez dava instruções à empresa petrolífera estatal, Petróleos de Venezuela, para mudar as suas contas de dólares para euros e outras moedas asiáticas.
Subsiste contudo a questão: porque não substituíram já, quer a Arábia Saudita como a maioria dos países da OPEP, o dólar por pagamentos em ienes, euros ou outra divisa qualquer?

Nos Estados Unidos, no país do dólar, muitos analistas, desde Krugman, o Nobel da economia de 2008, a Martin Wolf, editor económico do Financial Times, lembram, perante a recente pressão anti-dólar, que nos seis meses que se seguiram ao colapso do Lehman Brothers, (15 de Setembro de 2008), a fase mais aguda da crise financeira, o dólar subiu porque os investidores em pânico procuraram refúgio no mercado dos Estados Unidos, mas à medida que o medo foi desaparecendo e se regressou à normalidade o dólar voltou a descer. Na opinião de Krugman, Wolf e tantos outros analistas, um dólar mais baixo não só é vantajoso para os exportadores do país como poderá ajudar o défice da balança de pagamentos para uma posição mais sustentável.

Em 1974, Richard Nixon, (o mesmo homem que três anos antes abandonara a ligação do dólar ao padrão-ouro), acordava com a Arábia Saudita que a OPEP atribuísse os seus preços de venda de petróleo em dólares. Iniciava-se a ligação petróleo-dólar, e durante anos um preço elevado do petróleo costumava significar um dólar forte. Para além desta ligação directa, dos preços de venda de petróleo em dólares, uma vez que os compradores de petróleo iriam precisar de dólares para as suas compras, a moeda dos Estados Unidos passava também a moeda de reserva mundial. Através do petróleo, de forma directa e indirecta, o dólar adquiria o seu estatuto duplo quer como moeda de pagamento quer como reserva mundial.

Pode-se então questionar, como poderá a moeda de um país, como os Estados Unidos, que importa dois terços do petróleo que consome, permanecer como moeda de estatuto duplo?
Porque mantiveram os membros da OPEP, apesar de todas as desvantagens que já vimos, as reservas em dólares e a ligação petróleo-dólar?

Realisticamente, os Estados Unidos, são o país com as forças armadas mais poderosas do mundo, oferecendo um poder protector militar inigualável, que o digam os países do Golfo Pérsico. E não é pois de estranhar, que no país onde a crise financeira rebentou, na fase mais aguda da crise, seja o país procurado como refúgio pelos investidores do mundo. Recordemos que a União Europeia tem um Parlamento, que ganhou mais poder com a rectificação do Tratado de Lisboa, mas que em nada se parece a um Pentágono.

 
Madalena Colaço