O petróleo que se consome diariamente no mundo seria suficiente para encher o "Mar Húngaro"

14 Outubro 2009

O cheiro acre a petróleo arde-lhes profundamente nas narinas, mas para estas centenas de pessoas é o aroma do paraíso. Jorra crude às golfadas deste oleoduto que atravessa os arrabaldes da cidade de Lagos, na Nigéria. À volta do tubo perfurado por ladrões, a população aproveita e apressa-se a recolher o líquido em bidões para venda clandestina.

De repente, toda a área sacode numa tremenda explosão. 500 pessoas são vítimas das chamas. Uma tragédia para esta nação, um rombo nas reservas mundiais de petróleo... e um acidente que inevitavelmente se vai repercutir para si no seu bolso.

O SANGUE NEGRO DA ECONOMIA

É desse mesmo bolso que você tira a carteira enquanto espera no pára-arranca da fila para abastecer o veículo. Mas os seus olhos arregalam-se ao chegar à gasolineira: como é que o preço está agora quase 10 cêntimos mais caro em relação à última vez que atestou, há menos de três semanas?

O combustível é sempre o mesmo, mas o seu valor é tão volátil como as faíscas que causaram a catástrofe no oleoduto nigeriano. Num mundo quase inteiramente movido a petróleo, qualquer ameaça à produção deste recurso natural desequilibra de imediato a débil balança da oferta e da procura. Se o repositório mundial de crude ficar mais pequeno, mais elevado será o seu preço. E se a procura desse crude aumentar, também mais caro será o seu preço.

Mas será que esse preço final pode aumentar 10 cêntimos só por causa de uma explosão num país africano? Não necessariamente, mas é um factor que mexe na equação.

Todos os dias, os treze mil milhões de litros de petróleo que se consomem no mundo seriam suficientes para encher o "Mar Húngaro", o maior lago da Europa Central. Só em Portugal, são cerca de vinte e três milhões de litros de gasóleo e gasolina que suprem diariamente as necessidades do país. Mesmo para quem abdica de transporte com combustíveis fósseis, não há como escapar ao crude: está no asfalto onde fazemos jogging ou ciclismo, está nos sacos de plástico das compras, nos componentes sintéticos das cadeiras de trabalho e até no monitor que tem diante de si neste preciso momento. Para o melhor e para o pior, o petróleo é hoje a mais importante e mais transaccionada mercadoria do planeta.

Mas como explicar a volatilidade do valor deste produto? Quais os reais factores que determinam o seu preço à boca da gasolineira?

GOTA A GOTA, CÊNTIMO A CÊNTIMO

No exacto instante em que você abastece o seu veículo, o custo de cada golfada que jorra da agulheta divide-se numa longa sucessão de custozinhos: uns para pagar a refinação do crude, outros para a sua distribuição e transporte, outros para o branding da empresa petrolífera, outros para a gasolineira e ainda outros para o custo do próprio petróleo. Tudo junto constitui o preço de venda (sem impostos, que dependem de cada país e podem representar fatia considerável, especialmente em Portugal).

É este último custo, o do próprio petróleo, que mais peso adquire na equação – e é também o mais variável. A cotação do barril de petróleo de Brent, referência para Portugal, depende em grande medida do preço estipulado pelos 13 países que formam a Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP). Para estas nações, detentoras de cerca de 40% da produção mundial de crude, é simples aumentar ou reduzir o preço do barril nos outros países: basta que travem ou elevem as suas quotas de produção, artifício de que fazem uso sempre que julguem necessário regular os preços internacionais.

Então a OPEP é o principal influenciador do dinheiro que tem de tirar da carteira ao pagar o abastecimento? Na vasta maioria dos casos, sim, a par dos impostos, mas está longe de ser o único. A partir do momento em que o crude é captado das profundezas da Terra até ao ponto em que entra no seu depósito de combustível, tudo o que acontece pode afectar o preço: desde um furacão perto da refinaria, passando por um incêndio num petroleiro, até um acidente explosivo num oleoduto... mesmo quando causado pelo descuido de ladrões de petróleo nigerianos.

UM MERCADO EXUBERANTE

Qualquer destes imprevistos basta para influenciar marcadamente o preço do petróleo, mas outros oscilam-no de forma mais subtil. Uma greve anunciada nas distribuidoras de combustíveis adivinhará uma subida de preço. O prenúncio de instabilidade política num país da OPEP fará o mesmo. Por outro lado, a descoberta de uma nova jazida prenunciará uma descida, pois as reservas dilatar-se-ão, aumentando a oferta. Até um simples relatório sobre as expectativas de consumo a longo prazo é suficiente para fazer tremer os preços! A especulação entra sempre na jogada.

No entanto, dificilmente estas flutuações se vão reflectir no preço final que lhe é cobrado a si ao abastecer a viatura, dado que os impostos e os ajustes das petrolíferas sobre os preços tendem a abafar este efeito.

Mas se você tem inevitavelmente de perder na gasolineira, muito tem a ganhar no próprio barril. Todos os dias, o valor do petróleo cotado em bolsa sofre variações notórias, cujas subidas e descidas proporcionam grandes oportunidades de liquidez. Uma exuberância sem paralelo, ideal para investimentos destinados a outorgar rendimentos exponenciados, sobretudo quanto executados com perspicácia, rigor e experiência.

Pois da mesma forma que uma minúscula fissura num oleoduto nigeriano pode de facto abrir um buraco na sua carteira, também a aposta no melhor activo no momento certo tapará de uma só vez esse buraco com um revestimento de ouro... negro, a bem dizer.
 

Nas manutenções de Primavera, as refinarias reduzem sempre a produção durante algum tempo, levando a um aumento sazonal do preço da gasolina.
O custo por litro na Venezuela é tão baixo que se enche o depósito com 50 cêntimos. É o país com a gasolina mais barata do mundo.
As ondas de choque do terrorismo também influenciam o crude. Aumentam os seguros das petrolíferas, aumentam os preços do petróleo.