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O cheiro acre a petróleo arde-lhes profundamente nas
narinas, mas para estas centenas de pessoas é o aroma do paraíso. Jorra
crude às golfadas deste oleoduto que atravessa os arrabaldes da cidade de Lagos,
na Nigéria. À volta do tubo perfurado por ladrões, a população aproveita
e apressa-se a recolher o líquido em bidões para venda clandestina.
De repente, toda a área sacode numa tremenda explosão. 500 pessoas são
vítimas das chamas. Uma tragédia para esta nação, um rombo nas reservas
mundiais de petróleo... e um acidente que inevitavelmente se vai
repercutir para si no seu bolso.
O SANGUE NEGRO DA ECONOMIA
É desse mesmo bolso que você tira a carteira enquanto espera no pára-arranca
da fila para abastecer o veículo. Mas os seus olhos arregalam-se ao
chegar à gasolineira: como é que o preço está agora quase 10 cêntimos
mais caro em relação à última vez que atestou, há menos de três semanas?
O combustível é sempre o mesmo, mas o seu valor é tão volátil como as
faíscas que causaram a catástrofe no oleoduto nigeriano. Num mundo quase
inteiramente movido a petróleo, qualquer ameaça à produção deste recurso
natural desequilibra de imediato a débil balança da oferta e da procura.
Se o repositório mundial de crude ficar mais pequeno, mais elevado será
o seu preço. E se a procura desse crude aumentar, também mais caro será
o seu preço.
Mas será que esse preço final pode aumentar 10 cêntimos só por causa de
uma explosão num país africano? Não necessariamente, mas é um factor que
mexe na equação.
Todos os dias, os treze mil milhões de litros de petróleo que se
consomem no mundo seriam suficientes para encher o "Mar Húngaro", o
maior lago da Europa Central. Só em Portugal, são cerca de vinte e três
milhões de litros de gasóleo e gasolina que suprem diariamente as
necessidades do país. Mesmo para quem abdica de transporte com
combustíveis fósseis, não há como escapar ao crude: está no asfalto onde
fazemos jogging ou ciclismo, está nos sacos de plástico das compras, nos
componentes sintéticos das cadeiras de trabalho e até no monitor que tem
diante de si neste preciso momento. Para o melhor e para o pior, o
petróleo é hoje a mais importante e mais transaccionada mercadoria do
planeta.
Mas como explicar a volatilidade do valor deste produto? Quais os reais
factores que determinam o seu preço à boca da gasolineira?
GOTA A GOTA, CÊNTIMO A CÊNTIMO
No exacto instante em que você abastece o seu veículo, o custo de cada
golfada que jorra da agulheta divide-se numa longa sucessão de
custozinhos: uns para pagar a refinação do crude, outros para a sua
distribuição e transporte, outros para o branding da empresa
petrolífera, outros para a gasolineira e ainda outros para o custo do
próprio petróleo. Tudo junto constitui o preço de venda (sem impostos,
que dependem de cada país e podem representar fatia considerável,
especialmente em Portugal).
É este último custo, o do próprio petróleo, que mais peso adquire na
equação – e é também o mais variável. A cotação do barril de petróleo de
Brent, referência para Portugal, depende em grande medida do preço
estipulado pelos 13 países que formam a Organização dos Países
Exportadores de Petróleo (OPEP). Para estas nações, detentoras de cerca
de 40% da produção mundial de crude, é simples aumentar ou reduzir o
preço do barril nos outros países: basta que travem ou elevem as suas quotas de produção,
artifício de que fazem uso sempre que julguem necessário regular os
preços internacionais.
Então a OPEP é o principal influenciador do dinheiro que tem de tirar da
carteira ao pagar o abastecimento? Na vasta maioria dos casos, sim, a
par dos impostos, mas está longe de ser o único. A partir do momento em
que o crude é captado das profundezas da Terra até ao ponto em que entra
no seu depósito de combustível, tudo o que acontece pode afectar o
preço: desde um furacão perto da refinaria, passando por um incêndio num
petroleiro, até um acidente explosivo num oleoduto... mesmo quando
causado pelo descuido de ladrões de petróleo nigerianos.
UM MERCADO EXUBERANTE
Qualquer destes imprevistos basta para influenciar marcadamente o preço
do petróleo, mas outros oscilam-no de forma mais subtil. Uma greve
anunciada nas distribuidoras de combustíveis adivinhará uma subida de
preço. O prenúncio de instabilidade política num país da OPEP fará o
mesmo. Por outro lado, a descoberta de uma nova jazida prenunciará uma
descida, pois as reservas dilatar-se-ão, aumentando a oferta. Até um
simples relatório sobre as expectativas de consumo a longo prazo é
suficiente para fazer tremer os preços! A especulação entra sempre na
jogada.
No entanto, dificilmente estas flutuações se vão reflectir no preço
final que lhe é cobrado a si ao abastecer a viatura, dado que os
impostos e os ajustes das petrolíferas sobre os preços tendem a abafar
este efeito.
Mas se você tem inevitavelmente de perder na gasolineira, muito tem a ganhar
no próprio barril. Todos os dias, o valor do petróleo cotado em bolsa
sofre variações notórias, cujas subidas e descidas proporcionam grandes
oportunidades de liquidez. Uma exuberância sem paralelo, ideal para
investimentos destinados a outorgar rendimentos exponenciados, sobretudo quanto executados com perspicácia, rigor e experiência.
Pois da mesma forma que uma minúscula fissura num oleoduto nigeriano
pode de facto abrir um buraco na sua carteira, também a aposta no melhor
activo no momento certo tapará de uma só vez esse buraco com um
revestimento de ouro... negro, a bem dizer.
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